De um lado a mina numa área de 13 mil hectares...

Atualizado: 1 de abr.

... onde se vê montado com sobreiros que levam cerca de 40 anos a produzir a primeira tirada de cortiça. Pinheiros, pouca ou nenhuma pinha dão, a culpa?! do nemátodo, ninguém contribuiu para isto. Os homens que vivem da sazonalidade: a cortiça, a pinha, a tosquia, a resina, onde vão trabalhar quando muitas destas árvores que são sustento das suas famílias começarem a ser arrancadas? Talvez comecem a roubar, talvez morram de tristeza, de doença. O consumo de águas, a poluição que chegará à terra, aos lençóis freáticos que irão baixar ainda mais e as poucas linhas de água superficiais a desaparecer, o ruído, os animais a não terem lugar para se abrigar. As casas a desfazerem-se aos poucos com explosões para encontrar minério: chumbo, zinco, cobre, ouro e prata. A lagoa salgada, lugar mítico de patos selvagens, onde a água do mar um dia tocou. Morta. Seca. As árvores cairão, os animais a morrer, os caçadores a ir ao Mac Donald's ao domingo. Vidas inteiras dedicadas à agricultura e à floresta. Vão agora ser mineiros?! O pior é quando estes projetos são encerrados e as pessoas ficam desamparadas como aconteceu na mina do Lousal, aqui ao lado.


Do outro lado temos o turismo de luxo montado em cima de dunas, roubando espaço aos pinheiros bravos e mansos que ali faziam sombra, calcando cimento em cima de areia porque nós queremos, podemos e temos dinheiro que chegue para ter a melhor vista para o mar e o caminho mais próximo para um mergulho. Porque o Sr. Beato, o Ricardo Salgado e os amigos se lembraram um dia, porque o Sr. Figueira Mendes já não pode fazer nada, imaginem a falta de poder agora. A culpa não é de ninguém, foram os outros. Como se a água, a terra, o ar fossem algo que se pudesse negociar nestes modos, empurrando culpas e alimentando desculpas para continuar a lixar o último filão, o pedaço mais virgem que sobra da costa portuguesa!



Como assim 35 mil camas, maioritariamente para casas de segunda habitação em cima de centenas de kms de dunas?! Como assim um campo de golfe não chega, têm de ser 5, para não aborrecer estes pobres de espírito quando chegam aqui de férias. Como assim o Sr. da CCDR nem conhece nenhum porque só está naquele cargo há um ano?! Como assim o senhor da APA fala com tamanha tranquilidade sobre falta de água e talvez uma possível falta de água nos aquíferos?!?


Em Grândola, a população não se pode revoltar, a maioria trabalha na Câmara, mesmo que não coadunem com toda esta destruição, têm de "silenciar", são as suas vidas, os seus empregos, os filhos, contas para pagar. Vamos fazendo de conta que isto nos vai enriquecer também, que vamos ter vida boa, dinheiro com fartura, roupas novas, carros topo de gama, casas nos melhores bairros e comer nos restaurantes mais chiques. Quando começarmos a ter ainda mais vírus, doenças, desastres ambientais, nem o dinheiro nos vale.


Mas mais do que dinheiro, é a sede de poder e a enorme falta de poder pessoal. E eu pergunto, como está a ligação destes homens ao ventre, à mãe terra? A forma como tratamos a natureza também revela a forma como tratamos a mulher numa sociedade: com desprezo! Noutros tempos, a mulher era especial porque era associada à Mãe Terra, sendo vistas como aspectos vivos da criação, porque vivenciavam todos os meses com o ciclo menstrual, o processo da vida, morte e renascimento, além do poder de gerar. Hoje a natureza e a mulher ainda são tratadas sem qualquer respeito e com vários tipos de violência. Deixaram também de acreditar em deus, seja ele qual for e deixaram igualmente de cuidar da Terra. Se isto não vos faz refletir, então não sei.