Verbo ir e verbo dançar





Quando eu era pequena a minha mãe conta, e eu lembro-me bem, que eu não parava perto dela, ela trabalhava muito e eu resolvia sozinha onde ia passar o meu tempo livre fora da escola. Percorria as casas da aldeia das amiguinhas da minha idade. Claro que a minha mãe ia-me buscar por uma orelha e colocava-me de castigo, eu a seguir pedia o lanche e estava outra vez pronta para correr dali para fora.

Mais tarde quando tirei carta, aos 18 anos, fui pela primeira vez conduzir o carro do meu pai, à noite, sozinha da aldeia onde moro até à vila mais próxima. A minha mãe ficava na rua a fazer uma tal reza mais ou menos assim: "que tenhas tanta vida quantos passos dás". Ela percebia que apesar do medo, eu era destemida e queria era sair para o mundo.
Por estes dias também tem sido um pouco assim. Estou sempre no verbo ir, de malas feitas para a próxima aventura, com filhos ou sem filhos, perto ou longe. Este Verão foi uma bênção pois pude estar mais tempo com os meus filhos e fazer muita praia e muitos passeios, pude também viajar sozinha.
Agora começa a ser tempo de regressar a casa e às rotinas do Outono, fazer mochilas, preparar lanches, passar a ferro, lavar, limpar, organizar. Há os dias em que fecho a porta e só nesse movimento a casa fica arrumada, viro costas e vou feliz sem me importar se há migalhas e brinquedos pelo chão. Mas há outros em que tudo deve estar em seus lugares. Altares limpos, janelas abertas, ar a circular, energia a mexer. Eu já não me culpo quando deixo um prato sujo de uma noite para o dia ou quando os brinquedos rebolam debaixo dos meus pés, fazendo um especie de reflexologia podal intensa. Quem nunca pisou um legozinho no escuro da sua casa?!
Este fim de semana decidi fechar a porta de casa com tudo o que ficou por fazer, fiz as malas em 5 minutos e mais uma vez rumei a outro destino, ao desconhecido, para fora da minha zona de conforto mas muito para dentro de algo que chama por mim já desde os meus primeiros anos, dançar. Antes de sair fui almoçar a casa dos meus pais e o meu pai dizia que eu não consigo estar sossegada em casa e fica preocupado. Eu respondo que tenho quase 40 anos e dispenso os conselhos de quem vive bem num raio de 10 kms. Essa não é a minha natural forma de ser e parada no mesmo sitio é sinal que algo vai mal comigo. Já fiquei parada tempo demais e pensei mesmo de ficar podre de tanto dormir e de tanta apatia nos meus dias. Aliás pensava mesmo que eu não voltaria a viver na mais verdadeira essência de mim. Previsões erradas. As minhas amigas e toda a família davam-me o alerta mas eu continuava a dormir para a vida.
Enquanto bailarina, comecei a expressar-me muito cedo de formas bem pitorescas, dançava em cima de bancos numa taberna, dançava a noite inteira nos serões passados com a minha avó Angela e dançava na rua, morrendo de vergonha sempre que alguém aparecia. Numa pequena aldeia fui sendo habituada a ir aos pequenos bailes que existiam por ali, vestia me a rigor e assim aprendi a dançar valsas, corridinhos e marchas, só no tango tinha dificuldades em acertar passo. Na minha adolescência comecei a ir a matinés e a discotecas. Ainda comecei a fazer dança contemporânea em Beja, enquanto estudava, mas parecia já ir tarde demais, o corpo não correspondia. Quando terminei o curso voltei a casa dos meus pais, a essa pequena aldeia. Eu queria mesmo dançar e por ali eu só conhecia o rancho folclórico da aldeia mais próxima. Então decidi ir. Vesti me mais uma vez a rigor com vestidos costurados à mão, sapatos de couro e todas as normas de um rancho federado. Mas haviam regras bem mais enraizadas, eu não podia mexer as ancas, nem agarrar o homem com quem dançava na parte de trás das costas. Era assim antigamente e havia que manter a tradição. Actuámos em vários palcos e várias vezes pensei de voar a dançar corridinhos daqueles super rápidos onde só ali as saias se levantam para mostrar as meias e todos os saiotes que haviamos vestido por baixo. Era emocionante. E eu adorava dançar aquelas músicas antigas, algo me era acordado naquelas melodias e danças de roda, como se os antigos quisessem falar comigo. Mais tarde o rancho acabou. Comecei a dançar em casa e comecei também a descobrir o andanças, um festival de danças tradicionais muito conhecido no nosso país. Eu nessa altura praticava apenas yoga e foi nessa união quando a dança entrou de forma romântica na minha vida através de kizombas, sembas, salsas, funanás. Depressa sairam, o yoga e a dança românticas. Ainda bem. Nos últimos anos dancei muito pouco.
Mas houve um dia, no início deste ano que vi um vídeo de dança em que eu senti ter me acordado, me despertado para algo. Algo ali mexeu comigo. Logo tentei inscrever-me no curso com a pessoa que postara o vídeo mas não foi possível acontecer. Adiei a aula com essa professora mas comecei a dançar mais sozinha em casa, com os meus filhos já dançava há mais tempo.
Quando estive nos Açores falaram me de um professor que eu já conhecera de um ecstatic dance em Lisboa, ele também estava na mesma ilha nesses dias, mas era impossivel fazer qualquer coisa com ele lá. Então fui ver e vi que ia haver um retiro bem perto de casa a poucos dias. Aproveitei os descontos deste tempo de pandemia e inscrevi me sem conhecer ninguém, sem conhecer o espaço.
Encontrei um espaço e pessoas que parecem dançar juntas há muitos anos. Entreguei me. A dança é uma forma de expressão e libertação que faz vibrar todo o meu ser. O meu maior sonho sempre foi ser bailarina, mas cedo na minha vida percebi que não tinha essa oportunidade. Agora tirar um mestrado em dança? Ir para a FMH? Bem... verdadeiras crenças limitadoras da sociedade e na minha cabeça.
As oportunidades estão em toda a parte. E dançar não precisa de palco. Precisa de chão, precisa de espaço. Precisa de corpo. Precisa de alma.
Dançar é poesia do corpo, é pintura da alma. É limpeza, é centramento, é inteireza.
A dança também já me levou a lugares estranhos, de profundo desenraizar, de êxtase, também necessários quando o corpo precisa mostrar que algo vai mal.
Por isso a dança reconetiva com a essência do ser é cura para as dores da alma. Religa nos e refaz pontes de conexão entre os elementos externos e internos da natureza humana e terrestre.
Este é todo um mundo novo em que eu me sinto verdadeiramente em casa, em que sou casa mas que me leva para outros lugares distantes em que eu pensava não ter oportunidades.
Por aqui avizinham-se longas aprendizagens. Não sei ainda como e quem. Mas comecei com as pessoas certas.
Desejem me sorte nesta viagem de encontro ao meu jeito de ser.
Bom domingo e lembrem-se de dançar.
"Assim na vida como na dança."

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