"Ser super mãe é uma treta"

 


"Não nos vale de muito, a nós mães, sermos cheias de ego, de certezas absolutas e muito menos metermos os pés num pedestal enquanto apontamos o dedo. Eu dou um exemplo. No outro dia passei por uma miúda, ela estava com o pai e ele dizia-lhe “já estou farto de te avisar para teres cuidado”, mas ela continuava a fazer um malabarismo qualquer em cima da bicicleta alheia à possibilidade de se estatelar no chão. Claro que em menos de nada ela estava no chão, com os joelhos esfolados e a chorar. O pai disparou um “é bem feita” e eu fiquei indignadíssima. Foda-se, então a miúda está no chão a chorar e ele diz “é bem feita?” A minha indignação demorou pouco. O pai rapidamente a pegou ao colo e consolou-a. E eu senti-me envergonhada. Lembrei-me que ainda no outro dia tinha dito “é bem feita” ao meu filho depois de ele estar aos saltos no sofá e cair no chão. Também eu já estava farta de o avisar para ter cuidado, também eu lhe disse “é bem feita” e também eu o apanhei do chão e o consolei. Reduzi-me à minha insignificância. De onde nunca devia ter saído.

A maternidade está cheia de pequenos exemplos de sobranceria. Se os nossos filhos dormem bem, se comem bem, se não fazem birras ou se adormecem sozinhos é quase certo que nos enchemos de ego e dizemos aos outros como é que devem fazer para ter filhos como os nossos. Como se existisse um manual de instruções com a solução para todos os nossos problemas. Essa merda não existe. Os nossos filhos nascem e nós somos esmagadas pela realidade. Toda a preparação que fizemos, todos os livros que lemos e todos os conselhos que recebemos dizem pouco àquele ser minúsculo que temos nos braços. Ele é único, não é os outros. Pouco lhes importa se queremos amamentar, se não os queremos a dormir na nossa cama, pouco lhes importa se começam a falar mais cedo que o filho da nossa amiga ou se não gostamos de birras por tudo e por nada. Nada disso lhes diz respeito. Eles crescem alheios às expectativas que criaram para ele. Eu tinha várias certezas, como todas as mulheres, depois tive filhos e vou engolindo as minhas certezas umas atrás das outras.
Há uns tempos, numa festa de aniversário de crianças, uma miúda deu uma cotovelada à mãe, eu revirei os olhos e pensei “comigo nunca”. Nesse mesmo dia, em casa, ralhei com a minha filha a propósito de uma merda qualquer e ela levantou a mão e bateu-me no braço. Dei-lhe um raspanete e engoli mais uma certeza. A maternidade é um exercício constante de humildade."
Autoria do texto "Ser super mãe é uma treta"

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