Carta ao Patriarcado


CARTA AO PATRIARCADO

"Vem, quer chegar?
Esse espaço é sagrado. Não é meu, é de muitas.
Antes de entrar, silencia, baixa o tom, se atenta...
Presta atenção, pede licença.
A matéria aqui habita o invisível, as entrelinhas e os descontornos.
Sua lógica e ruídos não te permitem perceber?
Aprende então a observar.
Vem, pode chegar, mas escuta antes de falar.
Aqui o seu lugar é onde tua virtude te coloca, então se apruma!
Suas projeções você deixa lá fora, faça o favor.
Nessa sala de espelhos, tudo é reflexo.
O que mesmo você vê?
Mostra a sua cara, valente!
Tira essa máscara, se assume em sua feiúra.
Quanto mais você se esconde, mais testemunham sua amargura.
Tá com medo? Pois o sinta. Aqui tem bruxa, puta, feiticeira, histérica, louca, tem macumbeira. Tem quem tá nem aí para o que você quer ou pensa.
Aqui tem santa, tem benzedeira, tem mãe, tem filha, tem curandeira.
Esse é espaço sagrado, esses corpos estão blindados.
Aqui não "tem que" nada não, meu sinhô. Não é a mesma lei, não é a mesma regra, não é nem o mesmo jogo.
Tá confundido? Sempre foi... Só que agora está exposto.
É da ponta da flexa que avança o nosso rezo: com leite nas tetas, punhos erguidos, olhos atentos, doces sorrisos. É com os pés na terra que avança o nosso rezo: plantando sementes, acordando adormecidos, cantando os novos tempos, por descansos merecidos.
Não estamos disponíveis aos seus desserviços.
Sei dos seus fardos, das suas dores, das suas feridas e desamores. Essa mente dura, essa existência imatura. Deve ser cansativo portar toda essa armadura.
Estamos saindo dos escombros, dos buracos onde você nos meteu. De tanto soterrar, não é que floresceu?
Mas veja bem meu sinhô, não precisamos de mártires não... Isso é coisa de vocês: que gostam da dor, gozam roucos no sofrimento. Pra ti aqui não tem nenhuma, nenhuma a mais nem a menos, com ou sem intento.
NENHUMA, entendeu?
Esse espaço é sagrado, não é meu, é de muitas.
Dissipamos a carência no encontro, suas migalhas não têm mais encanto. Temos refúgio, estamos mais fortes, umas nas outras. Encontramos nosso norte - ou sul, para nossa sorte. Pensou que nos calaria? Pois agora aguente, o grito aqui segue o fio que atravessa o silêncio hereditário de nossas tantas avós. Não lembrou como se faz?
Então vá, deixa a velha falar.
Mexeu com uma, mexeu com todas.
#voltadanzamedicina não sobre mim, é sobre nós."
Texto e imagem de Danza Medicina
Autoria Morena Cardoso

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