Bom dia!
Nestes dias resolvi abrir espaço na minha vida para a engenheira do ambiente/taberneira que nunca se realizou profissionalmente (e ainda bem) e que ainda conversa e resmunga comigo e com o que vê à sua volta. Reduzo, reutilizo, separo e coloco na reciclagem mas mesmo assim acho que faço muito pouco. Preciso fazer mais e aqui vou partilhar convosco este desejo que é tão meu, tão nosso, o desejo de cuidar da nossa terra, do nosso planeta.
Na minha mercearia começou por ser um blog em que eu escrevia com o desejo de reabrir um negócio de família e voltar a viver na aldeia onde fui criada, lembrando toda a minha infância passada a arrumar prateleiras, a brincar com pacotes de arroz, farinha e a pesar fruta na balança. As linguiças eram embrulhadas em papel pardo, o pão era guardado numa tulha que ainda existe e onde toda a gente deixava, no dia anterior, o seu talego do pão onde escreviam num papel a quantidade e o nome do dono do talego, nessa noite a minha mãe registava tudo e ligava para a padaria do torrão para fazer a encomenda, chegou a vender 100 pães por dia, naquela altura. O feijão e o grão eram vendidos a avulso ou a granel. Haviam vassouras, pás, panelas de barro e até comprimidos se vendiam nas mercearias. Era um autêntico centro comercial dos tempos antigos. A minha avó Ângela, que não sabia ler nem escrever, fazia a sua lista de compras numa folha de papel com riscos e desenhos, era o avio da semana e ela fazia intenções de pagar tudo à minha mãe como de uma qualquer outra cliente se tratasse. Era também esta avó que fazia compostagem à antiga, tinha um local na horta onde depositava todos os orgânicos e que depois devolvia à terra como estrume para fazer crescer batatas, cebolas, rosas e afins. Era assim que a minha avó cuidava do seu quintal, passava os dias na rua, a casa, embora arrumada não podia contar muito com ela. O meu avô Daniel tinha as mãos brancas e imaculadas, não gostava de mexer na terra, sempre o vi a ler jornais e a escrever quadras, a enxada nunca a vi nas suas mãos. Ia quase todos os dias de manhã a Grândola buscar o jornal e alguma coisa que fizesse falta da vila. Falava pouco e quando falava ou era porque estava zangado ou era para dizer uma boa piada.
Foram os meus avós maternos os fundadores da taberna e mercearia neste espaço, na altura existiam mais 3 tabernas. Mais tarde, quando a minha mãe engravidou de mim, o meu avô pediu-lhe muito para ela tomar conta da mercearia, ela ja grávida, foi. Não existem coincidências. Eu nascia numa maternidade em lisboa mas tinha a mercearia da aldeia como berço e parque infantil para crescer.
Nessa altura o meu pai trabalhava no Porto e só vinha a casa ao fim de semana, despediu-se para ser taberneiro e para fazer o que mais gosta, trabalhar no monte, cultivar melancias, apanhar pinhas, tirar cortiça e cuidar das árvores que lhe seriam herdadas. O meu pai é batizado e tem a primeira comunhão mas desde que o conheço que nunca o vi entrar numa igreja para rezar, tem teorias hilariantes sobre Fátima e sobre Deus e tem como missa diária a ida ao monte, aquilo é religioso para ele. Foi ele quem me ensinou a falar com as árvores e a gostar da chuva.
Foi o primeiro homem mais próximo de ser pagão que conheci. A natureza é a casa dele. Não gosta de viajar para longe, só gosta de andar no monte a conversar com os pinheiros e os sobreiros e a chamar pelas ovelhas que o meu irmão comprou para dar vida à herdade da familia. Anda sempre a fazer contas à vida, sempre o vi a fazer contas de cabeça, regista todas as despesas e rendimentos de uma vida em incontáveis cadernos que eu um dia irei guardar para aprender a arte da poupança que ele bem tenta ensinar-me. Nunca gostou muito de ser taberneiro, mas fê-lo para garantir um futuro aos filhos. O filho é engenheiro florestal, um homem empreendedor e multifacetado, a filha também é engenheira mas não se soube orientar na vida e passa a vida a inventar coisas e a sonhar, mas um dia há-de assentar.
A minha mãe é crente em nossa senhora, mas nunca foi batizada, tal como eu e o meu irmão não somos, mas gosta de visitar uma igreja e de acreditar em Deus. Comprou uma bíblia sagrada que ainda não teve paciência para ler. Anda na sua tricicleta para trás e para a frente, faz separação do lixo, cozinha, borda, costura e pinta como ninguém, só pensa nos filhos e nos netos e por vezes as noites dão-lhe mais horas para pensar que os dias, gosta de ir às compras e à cabeleireira uma vez por mês, não usa maquilhagem mas nunca dispensa as suas jóias.
Estes foram os primeiros mestres que a vida me trouxe, são eles que primeiramente me inspiram na arte da vida simples, da ecologia, da vida sustentável. Vê-los todos os dias a cuidar da terra e do seu alimento é um bálsamo para mim e eu quero aprender estas artes antes que eles envelheçam e percam as forças.
Vou partilhar convosco as ideias de uma vida simples, ecologia e sustentabilidade de quem vive no campo. O objetivo é inspirar-vos a fazerem o vosso caminho, a descobrirem a "bruxa verde" (Greenwitch) ou o "Homem verde" (Greenman) que vive em vocês.
Porque eu acredito que todos temos um papel nesta tarefa hercúlea de regenerar as águas que poluimos, as terras que ocupamos, o ar que respiramos, de cuidar do fogo para que ele seja necessário e não incendiário. Todos estes elementos estão presentes no nosso corpo e precisam de estar em equilibro na terra para que nós possamos ter saúde. Enquanto houver tamanha poluição fora de nós também irá haver dentro de nós, no que comemos, bebemos, respiramos e olhamos. É uma questão de alinhamento e de balanço entre o corpo (a nossa primeira casa) e a terra mãe (a nossa segunda casa), de onde colhemos o alimento e nutrimos a alma. Por isso os alimentos devem ser orgânicos e sem químicos, a água deve estruturada, os solos devem ser abundantes e diversificados, o ar deve ser puro, e a nossa visão deve alimentar-se de céu, sol, nuvens e estrelas para expandir a consciência.
Para isso procuramos andar menos de carro, comprar menos, melhor e local e olhar-nos como um ser vivo que se alimenta, não só de comida, mas de relações, de trabalho, de prazer, de encanto e de sabedoria.
Na página da "minha mercearia" vou também partilhar todas as pessoas e projetos que me inspiraram e inspiram e com os quais tenho aprendido mais do que em longos anos na escola.
Deixem-se estar por aqui.
Da aldeia, com amor
Belinda

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