As histórias de uma moça alentejana nos Açores - 3°dia








Dia 3 - domingo, 6 de Setembro 2020
 
O dia seguinte começava também ele cedo. Eu aproveitava-me da primeira hora para escrever no bloco de notas digital e colocar os pensamentos em caixinhas, uns iria partilhar, outros iria guardar. 

Era dia das festas de Santo Cristo. 

Na minha cabeça as visões distorcidas que tivera um dia, começavam a fazer sentido e a minha alma começava a cantar. 

Pataniscas de espinafres com arroz de Feijão eram a inspiração do chef Adriano. 

Todos os meus sonhos estavam a ganhar inspiração deste lugar. Amor e uma cabana. 

Eu nem me lembrava qual era o dia da semana, também tinha perdido o norte. As nuvens não deixavam ver o sol nem as estrelas.

No caminho uma mercearia no meio do milho. No largo da Igreja o chão verde recebia as pessoas, a maioria vestida de vermelho. O padre falava por um microfone com som baixo e turvo sobre o perdão aos outros, pois Jesus também perdoara. Não falou do perdão a si mesmos. As cores perdiminantes eram o vermelho e o verde.

No regresso falávamos sobre o Chakra do plexo solar, amarelo, poder pessoal, muito esquecido nas práticas, valorizando se mais os chakras superiores e inferiores, coração, coroa, raiz.

Chegamos à lagoa de Santo Cristo, meditámos com o elemento água, de seguida mergulhei naquela mistura de água doce e salgada, fria e quente ao sabor das correntes. Ao nosso lado três adolescentes andavam de caiaque, riam, brincavam e chamavam nomes menos queridos umas às outras, o seu sotaque deixava adivinhar as suas origens. Diziam que não conseguiam meditar e continuavam no mundo delas. Nós no nosso, respeitando todos os sons e afazeres do lugar. Regressámos. O almoço era servido. Salada de Grão e bacalhau com azeitonas e cebola roxa. Um cuscus de legumes que eu não provara. Dispenso o trigo a maior parte das vezes. Já o pão aqui era maravilhoso. O queijo desaparecia da mesa com velocidade feroz. 

À tarde eu dormia a sesta e ao acordar fomos visitar o café da aldeia. A senhora tinha cara de poucos amigos. Ao fim da tarde voltámos à sala de prática. 

Numa prateleira com vários livros, encontrei um livro chamado a Alma da Fajã, nele eram escritos desabafos incríveis e simples de uma alma perdida e achada no alcoolismo na ilha da Fajã. Eu queria mesmo trazer aqueles desabafos e desenhos feitos pelo Emanuel Sousa comigo. Tratei de perguntar onde podia encontrar o livro para o comprar. O senhor Emanuel viria até nós e iria trazer consigo livros para vender. Do livro deixo-vos este texto que me tocou de tanta singularidade:
"A borboleta no dedo significa que a dona da sua casa tem lindas flores no seu  jardim, por ser limpo de ervas daninhas, o que torna esse jardim florido e perfumado. O jardim despertou a atenção dessa borboleta transmitindo-lhe paz tranquilidade e confiança, em cem casos, do acontece um. Devemos tratar-nos a nós próprios como se fossemos um jardim, andar lavados e limpos por fora e ser puros por dentro. Na vida tenta ser só o lado bom e respira felicidade." 

Desabafo, Emanuel. 

Jantámos, conversámos e fomos dormir. 

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