As histórias de uma moça alentejana nos Açores - 2°dia










2 ° dia - sábado, 5 de Setembro de 2020

Acordei como de costume, bem cedinho. Nessa manhã aproveitámos para visitar o mercado da graça e a igreja matriz. Na igreja pousava Santa eufémia, uma santa que segundo me contaram entrega a sua visão a Deus. Numa mão ela tinha uma taça com dois olhos e na outra uma pena, no caminho nós tínhamos encontrado tantas penas pelo chão, dizem que são recados dos anjos. 

Voámos para São Jorge 
Voar é um misto de fé(licidade) e medo. É confiar e largar. 
Eu sou muito ar, signo gémeos, comunicação, ideias, pensamentos, sou pouco de ter os pés no chão, por isso estar em terra é para mim muito fácil, consigo "voar" facilmente. Já subir às alturas não me deixa tão segura. Não gosto de andar de elevadores, nem em escadas rolantes, não saberia como ser feliz vivendo num andar no meio de uma cidade. Perder o chão é para mim uma forma de me enraizar. Deixa-me alerta e com os sentidos apurados. 

Parámos numa mercearia de aldeia, daquelas que têm tudo e comprei reforço para a caminhada, água e umas barritas de sésamo e chia. Gosto de conhecer os locais e ouvir os seus sotaques e prefiro contribuir para a economia local. 

Chegámos ao local onde iríamos começar a caminhar. Juntamo-nos em roda, sentiamos a força do vento. Invocamos este elemento pela sua força e a facilidade de limpar o que já não nos acrescenta e pela magia de espalhar as sementes de vida de forma espontânea e aleatória. Orámos para que o medo não seja refúgio nas nossas vidas e aprendemos que o medo não é para ser usado de forma leviana nem de forma excessiva. Iríamos ter de encontrar uma pedra ou algo parecido para levar para o altar, iríamos colocar aí o nosso super-poder. Pedi bravura para o caminho. Calcei o pé elástico, os ténis e começámos o percurso. 

Caminhamos durante cerca de 4 horas por entre fetos, louros, conteiras, hortênsias, cedros e muitas mais árvores que ainda não sei nomear, havia também uma cascata e uma fonte onde a deusa estava bem representada. Esse lugar transmitia encontro, aproveitamos para agradecer e mantrar algo para o nosso percurso. 

A natureza ensina, protege, descansa, enraiza. Se não prestares atenção ao chão, vais escorregar, cair. 
Cada pedra é um lugar de culto, cada folha é uma oração. Os templos estão em todo o lugar e não têm portas, todos são bem-vindos.

No caminho o meu pé esquerdo tinha dado sinal, parei uns instantes e procurei fixar-me na forma das pedras e na cor do chão. Estar atenta o mais possível ao local onde colocava o pé, entretanto pisei uma pedra e resolvi trazê-la comigo. Seria o meu super-poder. A descida não era muito íngreme, mas era preciso atenção plena. Pelo caminho não resisti a tirar algumas fotos. Como por magia o pé deixou de doer e segui caminho confiante. 

Terminámos o trilho serra do topo à Fajã da caldeira de santo Cristo. Chegámos com a força do mar nas pedras vulcânicas, as fajãs, as arribas verdes a protegerem-nos. 

Simplicidade e presença era o mote para os próximos dias. Wi-fi restrito a duas horas por dia, havia muito mais aqui para conetar não precisávamos de mundo. O lugar era de outra dimensão e presença. 

Ao jantar os cagarros começaram a dar-nos um som psicadélico lembrando músicas da Shakira, imaginei. O Atum da lasanha e as lapas da entrada  tinham sido apanhados no mar dos Açores. O jantar era servido de forma simples, sem grandes adereços e requintes. Uma sopa com sabor a beldroegas que tanto me lembra o Alentejo, um incrível crumble de pêssego para ir dormir mais doce. Os anfitriões do lugar pareciam viver verdadeiramente felizes aqui e recebiam-nos de forma simples e muito educada. 

O céu aqui tinha consideravelmente mais estrelas que o hotel onde tínhamos ficado na primeira noite. 

Eu tinha-me prometido desligar do mundo virtual onde tantas vezes encontro refúgio para imergir profundamente no ventre desta grande mãe e para estar presente no meu corpo. 

Antes de pedir a deus, a nossa senhora, ou a algum anjo eu gosto, como ensina a Abuela Margarita, de rezar e pedir a mim mesma a força para concretizar os meus desejos da alma.

Voltamos a reunir em círculo para uma pequena partilha, eu já muito cansada revelei a minha intenção para continuar a escutar melhor as respostas internas para seguir com este ano tão transformador das nossas vidas. Querer viajar sozinha tinha sido a principal razão porque estava aqui mas acabei por entregar-me a outros desafios. Recolhemos. Mal consegui agradecer as bênçãos deste dia, adormeci. 

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