Viver aqui



Bom dia! Adoro viver aqui, das primeiras coisas que faço uma delas é abrir as minhas janelas, sentir o cheiro fresco das manhãs, ver os primeiros raios de sol, olhar os sobreiros em frente, o vazio da rua. Duas senhoras vestidas de negro pelo luto dos seus maridos passeavam-se sempre por aqui à mesma hora, iam cuidar da horta da familia. Tenho saudades de as ver passar, apesar de que se metiam sempre na minha vida, mas faz parte da vida numa aldeia, agora só passam carros e poucos, de vez enquando aparecem uns veraneantes e pessoas que têm cá casa de fim de semana. Fui estudar engenharia do ambiente para Beja e estava sempre desejosa de voltar à aldeia, depois fui morar e trabalhar perto de Lisboa, ainda vivi uns meses no Porto, em Santo André e depois em Grândola, onde nasceu a minha filha, mas voltar aqui era sempre uma certeza, em 2012 reabri a taberna e mercearia da minha família e recuperei a casa dos meus avós, é uma casa pequena, acolhedora, virada a sul. Gosto de casas antigas e este era o meu sonho, viver e criar os meus filhos aqui. Quando me separei, adoeci e tive momentos em que desejei fugir daqui, das pessoas, da família sempre demasiado perto e a super-proteger deixavam-me limitada. Eu queria ser livre! A vila mais próxima era um lugar "pequeno" com pessoas felizes com a minha tristeza e eu sentia-me uma estranha, com poucos amigos e pessoas com quem me identificasse. Nessa altura pensei muitas vezes em deixar de viver aqui, mas não tinha como, não podia deixar os meus filhos. Comecei a fazer retiros em Marvão e aquele lugar e aquelas pessoas eram a minha familia perfeita, uma tribo onde eu podia ser verdadeiramente a Belinda. De todas as vezes que regressava trazia mais de mim, passava por processos de aprendizagem intensos e vinha sempre com o coração expandido. Nunca desisti de conhecer-me melhor, de mergulhar dentro das minhas feridas. Não queria sentir-me doente para sempre, não queria tomar medicação para sempre. Eu sabia que eu podia olhar e cuidar de mim, mas fui adiando e assumi um compromisso com os químicos, eles garantiam que eu não ia perder os meus filhos, mas eu ia perdendo-me de mim, nesse medo de ficar vulnerável à doença. Este ano tudo mudou, o mundo mudou. E eu voltei a encontrar paz nesta aldeia onde escolhi viver um sonho, voltei a apaixonar-me pela minha casa, pelas minhas origens. Agora é aqui que quero estar. A vila já não é um lugar estranho e as pessoas que pensava gostarem de me ver triste já não existem, saíram do imaginário onde tinham sido criadas, fui cultivando novas e velhas amizades e aos poucos fui voltando. Não conheço o futuro, não assumo nada como certo. Apenas tenho a certeza que quero cuidar de mim, dos meus filhos e desta terra que me acolhe tão bem. Tenho a certeza que o meu propósito aqui é maior e alinhar-me com esta terra é uma bênção. Neste lugar eu quero abrir a porta e janelas da minha casa e sentir-me segura. Encontrar espaço para ser, para receber quem eu desejo, para ver crescer os meus filhos e ver envelhecer os meus pais. Que todos possamos ser felizes nos lugares onde escolhemos viver.

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