Menstruar

É cada vez mais importante recorrer à literacia do nosso corpo, conhecer melhor a nós mesmas através do nosso sangue, do nosso ciclo.

Há já muito tempo comecei a fazer círculos de mulheres e a procurar saber mais sobre a minha menstruação e a razão de ter dores menstruais. Usei a pílula muito pouco tempo na minha vida porque não sentia que fosse bom para mim, apesar de saber que é importante na vida de tantas mulheres. No entanto eu queria perceber melhor porque é que eu tinha essas dores, e foram essas mesmas dores que me levaram ao maravilhoso encontro com  outras mulheres que me ensinaram a sabedoria do sangue menstrual. É desafiante este reencontro com o nosso sangue, com as histórias do nosso ventre, do ventre das nossas mães e avós que ainda habitam em nós. Reviram-nos, põe-nos o dedo na ferida, expõem as nossas cruezas mas também nos elevam e nos trazem mais sabedoria. 

Planto a minha lua, uso pensos reutilizáveis e copo menstrual há já mais de uma década. Pela terra e por mim, é parte da minha ecologia pessoal. 

Mas neste sistema em que vivemos continua a faltar tempo às mulheres para menstruar em pleno, ou porque trabalhamos e não podemos faltar ao trabalho quando as dores ficam mais fortes ou porque estamos demasiado ocupadas com a nossa vida familiar, ou porque estamos a fazer scroll no instagram. 

Falta-nos tempo para colocar um óleo, acender uma vela, colocar um saco de água quente sobre o ventre e saborear este encontro com o nosso sangue. Observar a cor, textura, odor e registar padrões, pensamentos. Mesmo que os nossos companheiros/maridos nos chamem de loucas, mesmo que os nossos filhos nos questionem ou interrompam este  tempo em que escolhemos receber o nosso sangue com outro olhar, podemos fazê-lo, devemos fazê-lo.

Os nossos ventres trazem muitas histórias mal contadas de abusos, de vitimização, de culpa, de falta de liberdade, de julgamentos, de submissão, de violência mas também trazem sabedoria, coragem, poder e prazer.

O coração-ventre, ventre-coração não pode ser esquecido. Os nossos úteros podem ser poesia na nossa vida. A terra escuta, o corpo pede. O sangue renova, limpa, cura e é vida. 

Porque é que falamos de menstruação em voz baixa, porque é que olhamos o nosso sangue menstrual com repulsa? 

Este texto foi escrito não só a pensar em nós, mulheres, mas também nos homens, especialmente aqueles que ainda não sabem honrar as mulheres e os seus corpos, que esqueceram o colo uterino das suas mães, o sangue do parto, da vida.

E  também escrevi este texto para celebrar um mês sem dores menstruais, mais tarde conto-vos a razão. 

Com amor, 
Belinda 

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