Não deixes a vida para depois, não deixes as páginas da tua agenda em branco.

Em Junho faço 37 anos. E só hoje escrevo para vos contar que em 2015, aos meus 32 anos, ao ser mãe pela segunda vez, e passados quase 7 anos me ressurge com mais força um problema de saúde. Tinham passado 4 meses depois de voltar a ser mãe, as noites mal dormidas, o cansaço, o desgaste de um pós parto traumático me mostravam o que tinha ficado guardado debaixo do tapete. Surge assim uma psicose puerperal, que é no fundo o contrário de uma depressão. Mais tarde fui diagnosticada com síndrome bipolar do tipo 1, ou seja com sintomas maníacos, sintomas estes que me levavam a um estado de puro êxtase com a vida, de pura adrenalina com tudo e o todo. Já tinha passado por o mesmo anos atrás, num surto psicótico quando me encontrava sozinha numa praia, algo tão forte que nunca vou esquecer. Não foram só coisas boas, mas o que sentia quando me encontrava neste estado era de tal forma bom, que eu tive alturas que desejava de voltar àquele estado. Claro que agora, com dois filhos ao meu cuidado e com uma separação à mistura, as coisas complicaram-se. Cheguei a ficar hospitalizada por duas vezes e outras às quais não cheguei a ir ao hospital mas que recebi tratamentos naturais em casa que não tiveram sucesso. Comigo só funcionava a medicação forte, a acupuntura, chás, moxabustão, nada funcionava e eu, que era toda anti-medicanentos e anti-vacinas, muito tinha a aprender. Da última vez, e esperando não lá voltar, apesar de só ter boas recordações, ao contrário do que todos possam pensar, estar num hospital psiquiátrico não foi traumatizante mas sim belo, belo sim, poder ter espaço e tempo para a minha criatividade, para os meus pensamentos, era algo mágico que eu na altura não percebia como o quão fora da realidade estava. Como eu dizia, da última vez sai com uma medicação injetável uma vez por mês, algo que me deixava sem vontade de fazer o que quer que fosse, mas apenas dormir e pouco mais. O tempo foi passando e enquanto essa medicação durou, as páginas da minha agenda ficavam em branco, poucas eram as coisas que tinha vontade de fazer. Tornei me numa mãe apática, numa mulher triste, vulnerável, sempre cansada e irritada, sentido a rejeição e a frustração de ter sido abandonada pelo companheiro numa das alturas mais difíceis da minha vida. Mas era assim que a vida me tinha mostrado o quanto eu estava esquecida de mim mesma, e ainda bem, pois foi esse pontapé que me fez acordar. Foram tempos muito difíceis, sei agora que existem problemas maiores, bem maiores que o meu, que uma separação e uma doença deste tipo não deixam ninguém incapacitante, que com ou sem medicação consigo ir resolvendo os meus problemas. Deixei muitos sonhos para trás, deixei de acreditar em mim, deixei mesmo de sonhar, fui obrigada a trabalhar em algo que não me revia para puder me sustentar.

Às pessoas que nos apontam o dedo, que nos julgam, peço para não se atravessarem no caminho porque as garras de animal instintivo que nascem num pós parto ainda saiem para fora de cada vez que me chamam nomes e põem o dedo na ferida, sim porque essa ferida por vezes ainda se abre, porque o tempo leva o seu tempo, porque não somos perfeitas e porque a distância é o melhor remédio para aqueles que escolheram tratar-nos assim.
Escrevo isto agora, que ao ver e sentir os efeitos da redução da medicação indicada pelo médico, me sinto completamente diferente. Claro que tenho os meus dias mais difíceis como toda a gente e tenho também os dias em que me sinto feliz e plena mas tudo isso é fruto de uma vontade e de um acreditar que é possível viver esta característica minha, (e chamo lhe assim pois não me vejo como doente, sou saudável) sem tanta medicação. Hoje, mais do que ser vigiada pelo meu médico, sou eu própria que me vigío, sou eu própria que estou ao comando da minha vida, mais do que tomar medicação, eu estou alerta dos meus sintomas, que são essencialmente deixar de dormir, eu estou atenta às minhas escolhas, porque ao contrário de outros tempos, eu hoje escolho cuidar-me, escolho dormir o tempo necessário, escolho nutrir- me com práticas saudáveis para o corpo e para a mente. E esta quarentena fez me ver que sou capaz de criar dois filhos sozinha, que sou capaz de cozinhar para eles, que sou capaz de cuidar de mim. Os filhos têm esta capacidade incrível de destaparem os véus mais finos da nossa personalidade, de nos confrontarem com as nossas dores de criança, enquanto filhas que fomos, mas também são eles os nossos maiores gurus e é com eles que começa o verdadeiro despertar espiritual, o verdadeiro caminho para dentro de que tanto se fala. Há até quem diga que faz o caminho do sol quem não tem filhos e quem os tem faz o caminho da lua, essa mestra escura e luminosa que muda constantemente e que nos revela a inconstância e esquizofrenia de ser mãe e também de se ser mulher cíclica.
Há muitas mulheres a viverem pós partos traumáticos, eu escolhi viver o meu, isolada, longe de tudo e todos, confinada a ter de cuidar de um filho o dia todo, com pouco apoio emocional, mas também fui eu quem escolheu viver assim numa altura que é tão desafiante na vida de uma mulher. Há sempre, do outro lado, alguém que nos pode ouvir, a quem podemos confiar as nossas histórias, a quem podemos abraçar e sentir calor. Porque nestes momentos o que mais precisamos é de um abraço quente e aconchegante que nos faça ter um sentimento de pertença. Por isso se és mãe, mulher, não importa, e vives um momento difícil na tua vida, lembra te que és tu mesma quem pode fazer algo por ti, questiona-te, deixa-te balançar nas dúvidas e nas incertezas, é mesmo nessas que virão as respostas, não te julgues tanto, não te substimes tanto, tu és incrível por dar à luz essa dor, esse filho, essa ideia, tu és o ser mais maravilhoso e és um ser único que tem um propósito divino, o de ser feliz, não importa como, importa sim que seja à tua maneira e essa só nós próprios sabemos como é.

Com amor,
Belinda

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