um ano ao contrário


A vida por aqui mudou tanto. Nestes últimos anos vivi momentos tão difíceis quanto empoderadores, e fui convidada a questionar toda a minha verdade interna e externa: não serei suficientemente boa, não fui boa mulher, boa mãe, boa filha, boa irmã, boa amiga, não cuidei, onde me deixei para trás, onde fiquei esquecida, quem me esqueceu realmente, o que me revelam estas sombras?

Dizem que quando nasce um filho, nasce uma mãe, renasce uma mulher. O nascimento do meu segundo filho fez com que eu renascesse, não só enquanto mãe, mas também enquanto filha e assim revivesse toda a minha história de vida. 

Neste últimos anos estive "doente" e nesse processo vi toda a minha vida desmoronar-se. A maior parte das noites tinham sido passadas em branco e tinham trazido muitas visões desadequadas mas também algumas reveladoras. O isolamento, a falta de nutrição (em muitos sentidos) e o cansaço tinham ajudado nesta descida ao inferno onde vasculhei dentro de mim todos os sentimentos mais escuros, mais medonhos. Olhei-os e confrontei-os. Carreguei nos braços a dor. Com coragem, amor e, especialmente com a ajuda dos pequenos seres de quem sou mãe, consegui fazer de um ano ao contrário um ano cheio de despertares que agora se revelam e se encaixam aos poucos nesta teia que parecia não fazer sentido.

Neste último ano perdi o que achava ter como mais certo na minha vida e ainda com os meus 33 anos fiquei completamente nua e despida numa estrada escura, fria, lamacenta, cheia de buracos, espinhos e nos braços carregando um peso enorme num caminho que parecia não ter fim. A verdade é que a mulher selvagem que habita aqui dentro do meu peito e que gosta de andar nua e descalça fez dessa travessia no escuro uma peregrinação até aos mistérios da vida, da minha própria história de vida. 

O rebuliço e a agitação do Verão fizeram-me esquecer que cá dentro estava algo que doía, que estava ferido. Nessa euforia subi sozinha à montanha, literalmente. Quando lá cheguei dancei, cantei e celebrei o meu ser nesse lugar onde me pude reconectar, longe de todos os que até ali tinham sido um apoio e, perto de outros que, mesmo sendo desconhecidos e distantes, quis chamar de minha tribo, pelo menos durante aqueles dias sentia que muitas daquelas pessoas estavam alinhadas com os meus sonhos e desejos mais profundos, com algo maior e cósmico que estava ali a acontecer. Quando voltei vi que tinha um mundo imenso à minha frente e que as oportunidades eram tantas que nem sabia por onde começar. 

Retomei a casa com a pele aquecida pelo sol, com as mágoas que a água do mar tentou lavar numa ou outra tarde de Verão. Renasci de uma Primavera onde hibernei em vez de florir. Devagarinho, o Outono obrigou-me a ganhar consciência da densidade dos dias, mais pequenos, mais escuros, mais frios, altura em que mudei as coisas de sítio, pintei paredes de lavado, deitei fora o que já não tinha mais lugar no local onde estamos. E nesse recolhimento fui observando que havia na escuridão uma imensidão de pequenas luzes a mostrarem-me que nada tinha sido deixado ao acaso e que a vida era tão mais sábia em mostrar-me que o que eu tinha de fazer era apenas confiar. 

As verdadeiras amizades chegaram, nem sempre no momento que parecia ser o certo, muitas estavam longe, algumas não vieram e eu também não fui. Outras procurei, acenei mas senti que tomavam o seu rumo, confusas e baralhadas com tudo o que estava acontecer, dessas protegi-me. Outras senti que estavam há tanto tempo à espera de um abraço meu que tardou em chegar. Outras não saíram do lugar onde as guardo e outras ainda que vou encontrando por estes dias de Inverno em que o sol volta aos poucos a ganhar força.

Com esta descida ao meu submundo, regressei, com arranhões, com mazelas, com cabelos brancos, mas mais sábia, mais empática para com o mundo à minha volta, mais corajosa, deixando para trás um diagnóstico que me fizeram crer existir, procurando e talhando caminhos alternativos e que levam mais tempo a obter resultados. Aprendi que, por vezes também temos de recorrer a químicos e que, neste mundo de corre corre, onde não há sequer tempo para a doença se revelar como o principio da cura, onde o importante é sermos saudáveis, luminosos, produtivos, esta é uma medicina tão importante como todas as outras nas quais eu verdadeiramente acredito, como a homeopatia, a acupuntura, a medicina antroposófica e tantas outras que me ajudam nesta minha descoberta, contudo os químicos não deixam muito espaço para a catarse tantas vezes útil e necessária nas nossas vidas. Também procurei rezos, orações, mantras e tudo o que mais houvesse para me voltar a encontrar, lembrando que não quero mais mascarar feridas e que é nesta vulnerabilidade que me redescubro, é nesta entrega profunda e nesta mostra de mim que me aproximo mais de mim e dos outros. 

E é assim que aos poucos volto a reconstruir, não o castelo em que vivia, mas um nova realidade onde semeio intenções com o coração mais puro e lavado. Para que o meu bem, seja o bem de todos, sendo esse o meu mais profundo desejo para 2018. 

Da aldeia, com amor
Belinda

6 comentários:

  1. Muito muito bonito obrigada Belinda por contares o teu caminho. Acabo o ano um pouco mais completa.

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  2. Sempre confiei em ti ...e continuo a achar que, ainda que ainda que pelo percurso mais difícil encontrarás a tua felicidade plena!
    Es linda e nunca deixaste de o ser mesmo quando estavas na lama ❤️
    Um abraço quente e apertado

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    1. Sou grata por ter amigas como tu, verdadeiras e que me escutam o coração! Adoro-te amiga! Um abraço cheio de saudades!

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  3. Compreendi e senti cada um.a das tuas palavras, como se fossem as minhas, que ainda não consigo expressar. Ainda estou nesse caminho tão doloroso e injusto. Ainda me sinto demasiado sozinha e sem saber bem como lidar com esse monstro que me tirou 40 anos de vida. Salvam me os dias as minhas filhas, a minha psicoterapeuta e a cerâmica que no meio do caos é a minha construção. Ouvi dizer que quando tudo isto passar, serei finalmente uma pessoa feliz e em paz. Ē isso que espero também para ti. Obrigada e boa vida , todos os dias.

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  4. Espero que possa encontrar a paz e a certeza de que a felicidade esteve sempre ai à espera de ser escutada! Eu não acredito na felicidade eterna, mas acredito que os tombos nos tornam pessoas melhores e mais sábias! Que possa encontrar, depressa, tudo o que procura para não se sentir tão perdida. Um abraço

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