Regresso

Quando a nossa casa está em obras parece que também na nossa cabeça começaram a partir paredes, a derrubar estruturas, a alterar divisões e a abrir buracos.

Mas o desconforto de ter a casa ou a cabeça e o corpo em obras é mais tarde recompensado quando colocamos as coisas em sítios novos, quando nos arrumamos de maneira diferente e quando deitamos fora o que está a mais e deixamos de ter sempre as coisas no lugar que achávamos ser o certo. 

Destruimos muralhas, construimos novos telhados, abrimos os portões, as portas e janelas que dão acesso cá dentro. Iluminamos as divisões onde não queríamos entrar, pedimos licença, limpamos o pó, as teias de aranha, tiramos os macacos do sótão e plantamos flores em vasos esquecidos, fazendo entrar o sol onde havia escuridão. Completamos ciclos, trancamos algumas portas e ficamos com a sensação de casa arrumada, coração feliz.

Gosto de reencontrar-me através dos objetos e dos lugares que já conheço, de arrumar o que ficou fora do sítio, de lavar a roupa que ficou pelo chão, de dar amor às coisas e, normalmente depois disso, vem sempre uma felicidade imensa de novos começos, de querer fazer as coisas melhor.

Cuidar da nossa casa é também uma forma de cuidarmos de nós, regar as plantas é dar de beber à nossa sede, varrer o chão que pisamos é olhar com humildade para baixo e rendermo-nos ao que é superior a nós.


Seduzimo-nos, enamoramo-nos de nós próprios, fazemos amor com todas as partes do nosso corpo. Lavamos a alma e abrimos o coração, enterramos os pés e viajamos com a cabeça nas nuvens. Abanamos com o vento e sacudimos o cabelo, desenleamos os nós e voltamos ao lugar de onde partimos. O cansaço transforma-se em sabedoria e a altivez perde a vez para a humildade e lá fora o mundo está precisamente como deveria estar, do lugar de onde nunca saiu. 

Da aldeia
com amor,
Belinda

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