A falta de inspiração



Quando a vida pára aqui no blog não quer dizer que pare lá fora. É que às vezes gosto de jogar para trás a inspiração e de esticar o pescoço ao sol e deixar a máquina fotográfica em casa, o iphone sem som e ir onde me apetece sem ter de fazer um registo de tudo o que me faz feliz. É também um desapego, desapego da partilha. No sábado que passou fui a um encontro sobre educação em Colos, onde, quem participava, não utilizava ipads, nem tablets, nem iphones, tinham apenas uma caneta e um bloco de notas, falavam quando tinham vontade e ouviam para saber quando queriam falar, numa conversa em círculo que durou algum tempo. E quando, no fim conversávamos, eu sentia que queria ficar ali mais tempo, e continuar a conversar com aquelas pessoas. É que eu às vezes fico cansada da energia que a tecnologia me tira, e sinto falta de conversar com os olhos e com as pessoas. Sinto falta de falar com as mãos, com o corpo. De dizer coisas que não podem ser apagadas ou editadas. De falar mais com o coração, porque quando estamos online é mais fácil lidar com as nossas palavras e dizer aquilo que mais convém à conversa. Ao vivo e a cores ouvimos não só as palavras das pessoas, como lemos o seu corpo, os seus gestos e é mais fácil perceber se os olhos estão coordenados com o que dizem e sentem. Bem sei que a tecnologia é muito importante nos dias de hoje, mas às vezes quero ficar longe dela, quero sentir que posso ver o mundo sem filtros e conversar sem vírgulas. Desligar os monitores e registar a vida apenas no silêncio e fotografar com os olhos as imagens que merecem ser lembradas. Parece que às vezes a nossa felicidade só cabe em fotografias. Por isso, se há dias em que deixo de escrever aqui, não se preocupem, é sinal de que a felicidade nem sempre tem tempo para ser partilhada.

7 comentários:

  1. e eis que este é um dos melhores posts que leio nos últimos tempos! é mesmo isso:)

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  2. Ai Sílvia, podes não acreditar, mas vim para o computador esta tarde e pensei: epá, tenho de escrever qq coisa no blog senão até parece mal tanto tempo sem dar de mim aqui e comecei a teclar como sempre faço à procura de inspiração, e olha lembrei-me disto, porque é isto que tenho sentido. Faz mais sentido quando falamos assim, sem dar muito nas vistas, do que nos vai no coração. fico muito feliz por teres gostado e espero mesmo falar contigo com mãos e gestos e olhos à mistura porque isto de ser virtual qq dia tem os dias contados, voltamos todos a precisar de ser outra vez de carne e osso, só.

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  3. acabei de ler e concordo com a Sílvia! simples, directo. e de facto, há coisas que não cabem numa foto!
    apesar de ser a primeira vez que comento, leio sempre o blog! ;-)

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  4. Embora goste muito de escrever no blogue penso e sinto muito isto que acabaste de escrever, se por um lado o blogue, de certa forma, ensinou-me a olhar para as pequenas grandes coisas do dia a dia, por outro esta urgência que por vezes sinto em partilhar levanta-me algumas questões ...
    Gostei muito :)

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  5. Nem mais, isso vai tão ao encontro do que escrevi hoje lá no blogue, é isso mesmo! * boa páscoa.

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