Filha, se puderes, fica. Fica neste país que é tão lindo. Fica, mas também podes ir, podes ir para onde queiras ir. Podes viajar, conhecer o mundo, mas antes de mais conhece-te a ti própria. Não viajes para tirar fotografias a viajar, viaja sim para dentro de ti, conhece-te através do mundo, das pessoas e dos lugares.

Filha, se puderes, fica. Fica, mas desliga a televisão. Quando puderes liga-a, mas liga-a apenas para veres a rtp2, não, desliga, desliga porque até aí, a cultura desapareceu. Se puderes, nunca vejas um telejornal, porque aí as pessoas vivem de emoções, porque aos veres o telejornal, não vais ser feliz, vais apenas viver as emoções dos outros, e não vais puder mudar o mundo. Se puderes, vai antes para a horta e aprende com os mais velhos o que eles melhor sabem fazer nesta terra onde cresceste, aprende a cultivar o que vais levar para a tua mesa. Aprende a viver os dias em ritmo com a natureza, com a lua e com o sol. Aprende a ser feliz e a mudar o teu próprio mundo. Vive apenas a tua vida e nunca a vida dos outros. Se puderes lê muitos livros. Nos livros cabe toda a sabedoria do mundo. E escolhe aqueles que te façam mais feliz e que ensinam que a chuva e os dias cinzentos também fazem falta.

Filha, se puderes, vê o sol nascer todos os dias e se puderes chega sempre cedo a casa, cuida dos teus e sê feliz com eles, não procures na rua a aprovação dos outros. Se puderes, vai ao teatro, ao cinema, aprende uma arte qualquer e, se puderes, partilha-a com os outros. 

Se puderes, sê feliz, não esperes que o teu país te faça feliz. A felicidade não está num lugar, a felicidade parte de ti em direção ao lugar onde estás. Podes procurar todos os lugares e, em todos eles, irás encontrar alegria e tristeza. Tu és quem terá de escolher com qual das duas queres viver. Mas se puderes viaja, se puderes fica. O nosso país é tão lindo, nele vais conhecer pessoas maravilhosas, paisagens fabulosas, tradições que valem a pena. Se puderes não te envergonhes do país que tens. Mas, se puderes, procura a verdadeira cultura que existe nas pessoas mais simples. Procura dançar as danças de roda, procura cantar as modas alentejanas, procura viver as tradições dos lugares onde vives. Nunca te envergonhes a dançar. Dança sempre como se toda a gente estivesse a olhar para ti e fá-los dançar contigo.

Filha, se puderes, fica. Os teus pais ficaram e escolheram uma forma mais simples de viver. Vivem sem luxos, vivem mais do amor do que do dinheiro e são felizes. A verdade é que fazem aquilo que os faz mais feliz e vivem sem pressas e com os sonhos nos braços. Vivem como se o agora fosse o mais importante. Mas filha, se puderes, vai, vai e procura o conforto, ele poderá fazer-te feliz, mas nunca te fará tão feliz quanto o amor. 

A verdade é que poucas pessoas entenderão o que os teus pais querem dizer, mas filha, se puderes, procura-te, vai bem dentro de ti e percebe todas as mágoas que porventura te deixámos. Trá-las todas cá para fora e deita-as ao mar ou à terra, nunca ao vento. Chora sempre que tiveres de chorar e ri em voz alta para toda a gente rir contigo. 




Já conhecem a Jojo, Joanna Moura, do blogue Um ano sem Zara? Não?! então deviam! A Joanna é uma rapariga que criou um blogue com a ideia de passar um ano sem comprar roupa e, vestir apenas o que tinha no seu roupeiro, não é maravilhoso?! Ela conseguiu, num ano, aumentar a sua conta bancária, deixando de comprar e recriando o seu estilo com o que já existia no seu roupeiro. Por aqui, procuramos também inspiração no baú da avó e no sotão da mãe. A moda faz-me sentido assim, reinventada por nós e sustentável para a nossa carteira, até porque os roupeiros estão sempre cheios, basta, às vezes, um pouco de imaginação para nos sentirmos perfeitas numa qualquer peça de roupa esquecida no guarda-fatos. Ela é brasileira, o que, logo à partida, lhe dá um estilo verdadeiramente próprio. Para mim, as brasileiras estão a anos luz de toda e qualquer tendência que aparece por aí e estão, porque são, mais do que tudo, genuínas, genuínas no vestir e no falar. Vão lá ler o blogue dela, ficamos sempre bem dispostos e a achar que a moda está ao alcance de todos, até mesmo daqueles que não vão às compras. Inspirem-se meninas. Fotografias do blog Um ano sem Zara




Ontem fui às compras ao supermercado e fiquei a saber que sou uma pessoa meio estranha, meio, porque ainda vou às compras ao supermercado, quando deixar de lá ir, passo a ser toda estranha, mas acho que isso não vai acontecer para já. Há coisas que já não fazemos mas que achamos que é normal. Mas o pior de se ser meio estranho é viver e partilhar a vida com outra pessoa que é estranha no seu todo. Bem, o que eu quero dizer com ser-se estranho é uma enorme lista de coisas que não fazemos e outras que ainda fazemos, mas de forma Estranha! Noutro dia em conversa com uma amiga, dizia-lhe que não tinhamos televisão em casa e ela perguntou: como consegues? e eu penso: bom e como é que se vive com uma televisão em casa? porque sinceramente eu já não sei como é... já não me lembro! Verdade é que, adoro ver televisão na casa dos "outros", que têm todos aqueles canais que eu nunca tive na vida, mas na casa dos "outros" eu não tenho nada para fazer e posso sentar-me alegremente a fazer zapping. As séries, os filmes, as novelas, os talk-show's, os telejornais, etc, devem ser todos muito interessantes, mas ainda não deixei de estar actualizada por não os ver (até porque há uma coisa normal que ainda faço, que é ter um iphone e acesso fácil à internet). Posso ser menos culta por não ver aquelas séries de culto, ou os últimos filmes do cinema? Posso, mas isso não faz de mim uma pessoa melhor, acho que, por exemplo, a prática de yoga faz de mim uma pessoa bem melhor. Quanto ao cinema, a última vez que vi lá um filme foi quando vi "os sete pecados rurais", eu nunca na vida ia ver comédias ao cinema, mas desta vez deixei que fosse ele a escolher o filme, porque da última vez que eu escolhi o filme, saímos de lá, os dois, com uma enorme sensação de mau estar. O filme chamava-se "os homens que não amavam as mulheres" e apesar de ser muito bem feito, causou em mim sensações das quais ando a aprender a fugir, por isso não faz sentido ir à procura delas no cinema, mas talvez isto seja dificil de entender para muitas pessoas e talvez seja fácil de entender para outras... 
A útlima vez que vi um filme na televisão, em casa dos "outros", foi no dia de ano novo e, acreditem, foi um dos melhores filmes que já vi, "Os jogos da fome", filme que tem uma mensagem muito forte por trás. Há ainda outro filme que posso recomendar a vocês, que também são estranhos, chama-se "La Belle Verte" e este sim é um filme que posso ver a vida inteira que nunca me vou sentir mal. 

Bom, a conversa já vai longa e eu ainda não contei metade das nossas estranhezas. Por isso, este é o primeiro post da série "não temos televisão em casa".